Esperançar é crer firmemente que o tempo não cura nada. Esperançar é crer que a cura vem do escorrer da vida que nos põe cara a cara com novos desafios, novos rumos, novos problemas, novas paixões, novos ódios, novos traçados e diferentes cores que nos fazem ver que os velhos problemas são apenas uma parte de nós, um verso sem rima em meio a tantos outros versos ritmados, alegóricos, assonantes, belos, intensos. Esperançar é permitir que o nosso coração cresça em diferentes direções e ardentemente de modo que os problemas de outrora vão sendo fagocitados pelas novas venturas da alma.
Esperançar é conseguir romper a barreira do “ser” vítima e perceber que é preciso tirar a dor do isolamento individualista, métrico e ritmado. Esperançar é entender que nós, sujeitos e co-autores da nossa própria história, somos maiores que a nossas dores e cicatrizes. Esperançar é saber que a dor é minha, e não eu dela.
Esperançar é entender e viver a verdade de que a dor não constitui o centro do universo, e isso implica reconhecer e aceitar que o mundo não pára um momento para me assistir e me velar. Esperançar é acreditar que a vida prossegue e é preciso desprender-se de si mesmo e olhar em volta, e ver o nu, o cansado, o abatido, o desabrigado, o desesperançado que precisa de alento. Esperançar é doar-se.
Esperançar é conseguir perdoar a quem mais nos feriu, e, ao mesmo tempo, ser honesto com o nosso coração e permitir-se chorar. O choro da esperança é aquele da dor, o inevitável. O choro do sofrimento, porém, que traz angústia, pois esse é opcional de quem o carrega. Esperançar é ainda conseguir ir mais longe ao ser capaz de ser grato pelos ferimentos sofridos, não num sentimento masoquista, mas num sentimento de conformação e contemplação. Conformação com a verdade de que em nossas vidas algumas pessoas foram como uma lixa dura que lapidou a nossa pedra. Contemplação pela beleza daqueles que foram o pano macio que poliu essa mesma pedra, e que por diversas outras vezes foram a água que lavou e revelou-lhe o brilho. Esperançar é agradecer à quem foi nosso esteio e porto seguro nos momentos em que a nossa pedra caiu e quebrou-se no chão, e alguém, pacientemente, tomou cada pedaço e ajudou-nos a ser um lindo mosaico multifacetado de pedras que vão se quebrando e se achando no caminho da vida.
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